Todos à sua volta são impostores: Por dentro das mais bizarras ilusões da mente

Já pensou se o seu melhor amigo fosse substituído por uma cópia exata ou que todos que você conhece são, na verdade, a mesma pessoa usando múltiplos disfarces?

Isso pode realmente acontecer nas ilusões da sua mente. Estas ilusões são monotemáticas, ou seja, ocorrem quando a mente de uma pessoa está iludida com um único tópico. Estados de ilusão – situações nas quais uma pessoa acredita piamente em algo mesmo que haja evidências de sobra do contrário – é uma condição ‘normal’ de quem sofre de esquizofrenia ou transtorno bipolar.

As ilusões monotemáticas são diferentes porque acometem pessoas que enxergam o mundo mais ou menos do jeito “normal”, mas em algum momento enxergam aquilo que a realidade não está mostrando realmente. Às vezes, nosso intelecto e nossas funções cognitivas até percebem que nossas convicções estão erradas, mas não conseguem fazer nada para corrigi-las.

Os rostos desconhecidos

A primeira das ilusões faz com que uma pessoa acredite que impostores substituíram seus amigos e família. É a chamada de síndrome de Capgras, um nome que homenageia o psiquiatra francês Joseph Capgras que descreveu a doença em 1923 com o seu estagiário Jean Reboul-Lachaux.

O estudo de casos que ele acompanhou descrevia uma costureira parisiense de 53 anos de idade que passou a acreditar que criaturas chamadas “sósias” começaram a sequestrar seus entes queridos e a prendê-los embaixo da terra enquanto planejavam roubar todas as suas propriedades.

Os registros médicos da época diziam: “O marido dela […] também desapareceu: um sósia tomou seu lugar; ela queria se divorciar deste sósia; ela formulou uma reclamação formal e pediu a separação à corte. Seu marido real foi assassinado e os “cavalheiros” que vieram visitá-la no hospital são “sósias” de seu marido; ela contou ao menos 80 deles. Se esta pessoa é o meu marido, diz ela, ele está totalmente irreconhecível, ele está transformado”.

“Eu certifico que esse assim-denominado marido que eles querem usar para me enganar, na verdade, deixou de existir há dez anos. Para substituir minha filha roubada, eles sempre colocavam outra que, por sua vez, era removida e imediatamente substituída… Quando eles levavam uma criança, eles me davam outra que parecesse com ela. Eu tive mais de duas mil crianças em cinco anos […]. Todos os dias garotas vinham à minha casa e todos os dias elas eram levadas; eu avisei ao superintendente da polícia, dizendo que os pais delas desapareceram e que elas tinham marcas de picadas no rosto para remover todas as suas ideias”.

Os dois médicos perceberam que todas as pessoas conhecidas da costureira, incluindo os funcionários do hospital onde ela era tratada, foram supostamente substituídas pelos sósias. O estudo deles especulava que havia algo de muito errado com a capacidade dela de reconhecer rostos. A perda desta habilidade foi um processo gradual, que começou como um “estado emocional primeiramente, depois um hábito, e finalmente um estado automático da mente”.

O maior mestre do disfarce do mundo

Leopoldo Fregoli foi um grande artista italiano na virada dos séculos XIX-XX. Ele se especializou no chamado quick-change, um tipo de truque no qual o mágico troca de roupa tão rápido que muitos achavam que eram necessários outros sósias para que isso acontecesse. Contudo, não foi a consciência da existência de supostos sósias que deram fama a ele nos anais da psicologia, mas sim algo mais improvável e indesejável.

Em 1927, os psiquiatras franceses Paul Courbon e Gustave Fail descreveram o caso de uma servente de 27 anos que se convenceu de que estava sendo seguida por duas atrizes chamadas Sarah Bernhardt e Robine, que ela viu num teatro próximo. Logo a servente acreditou que elas substituíam todas as pessoas que ela conhecia, mas não de maneira mágica, como o quick-change, mas sim de maneira supernatural, como se elas tivessem poderes como colocar a mente de pessoas em corpos de outras pessoas e entrar em sua mente para roubar seus pensamentos e forçá-la a fazer coisas.

As síndromes de Capras e de Fregoli são só duas entre vários tipos de ilusões. Paul Courbon e seu novo colaborador Jean Tusques descreveram a intermetamorfose em 1923, descrita como “a crença de que o corpo e a alma de diferentes pessoas estão encarnados no corpo de uma mesma pessoa”. Há também a paramnésia reduplicativa, descrita em 1930, na qual o indivíduo acredita estar não no local onde estaria antes, mas sim numa réplica, localizada longe da original. O neurologista tcheco Arnold Pick tinha uma paciente que se convenceu de que o hospital foi duplicado e que ele só poderia trabalhar nos dois para que ela o conhecesse de ambos os locais.

A origem das ilusões

Há uma causa para esses desvios de realidade. Quando aparecem como fenômenos isolados (ou seja, fora de situações de esquizofrenia ou transtorno bipolar), são geralmente resultado de um trauma cerebral, um derrame ou uma doença neurológica.

Quando esses erros acontecem, o cérebro precisa decidir se esses erros são indícios de uma realidade maior. Nem todos dariam este passo, e já foram feitas pesquisas para medir a susceptibilidade das pessoas para a síndrome.É um pouco mais fácil traçar o lado cognitivo do problema, pois as ilusões são problemas de identificação, ainda que sejam de tipos opostos – a síndrome de Fregoli faz com que a vítima fique obcecada por semelhanças entre conhecidos, enquanto que os pacientes de Capgras tomam pequenas alterações no comportamento de alguém como um motivo para duvidar da autenticidade da pessoa.

Tipicamente, as pessoas que costumam ir direto às conclusões e não dão importância para evidências que entre em conflito com o julgamento precoce delas são mais suscetíveis às síndromes. Às vezes, elas chegam a tal ponto em que um mundo cheio de impostores ou atores que mudam de roupa é mais possível que um mundo em que elas estejam erradas. Infelizmente, esse tipo de ilusão parece ter se tornado bastante comum.

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