[Entrevista] O que é a Energia Escura – Duilia de Mello

São Paulo – Duilia de Mello é uma brasileira conhecida internacionalmente por suas pesquisas e descobertas científicas. Formada em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela é professora e coordenadora do programa Ciência sem Fronteiras na Universidade Católica de Washington. Duilia também cuida de projetos na Nasa. Em entrevista à INFO, a astrônoma conta sua jornada e fala sobre os grandes enigmas da astronomia moderna.

Como despertou em você o interesse por astronomia?

Eu fui uma criança que queria ser cientista desde pequena. Eu gostava de ciência, de matemática e era muito curiosa sobre o universo. Então, eu decidi com 16 anos que queria aprender mais e ser astrônoma. Tive um problema para tentar explicar para a minha família o que eu queria ser. Eu mesma não sabia o que era a rotina de um astrônomo. Por isso, eu fui ao observatório da UFRJ, conversei com os professores e estudantes para ver como era essa carreira e fiquei ainda mais apaixonada.

Quando você decidiu ir para o exterior?

Eu trabalhava, em 1997, no Observatório Nacional com uma bolsa de recém-doutora dada pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) a jovens com futuro na pesquisa brasileira. Na época, o então presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, me desiludiu porque eu achei que um educador como ele fosse investir em ciência. Mas minha bolsa foi cortada pela metade durante uma crise financeira no CNPq. Não senti a firmeza que eu esperava. Então, mandei e-mail para os meus contatos no exterior. Um deles, do Telescópio Espacial Hubble, me contratou. Dois meses depois eu estava nos EUA e não voltei mais.

 Você pensa em voltar para o Brasil?

Eu acho que as instituições científicas do Brasil não me querem. Não tem um cargo ou uma forma de entrar em algum cargo alto. Por exemplo, no Observatório Nacional, as vagas são para os meus alunos. Também tem o Ciência sem Fronteiras, que tem um pacote para trazer brasileiros de volta. Mas é só para os mais jovens. Se isso fosse há 15 anos, eu até teria voltado. Não existe um mecanismo de absorção para trazer cientistas que já fizeram a carreira fora.

 Como é a sua rotina de trabalho? 

Eu estou cada vez mais professora e cada vez menos pesquisadora. Vou até a Nasa duas vezes por semana ver meus projetos, delegar funções aos colaboradores. Nos outros três dias, eu dou aula de astronomia e física. Mas semestre que vem essa rotina vai mudar. Irei três vezes até a Nasa e duas vezes à universidade.

 Quais grandes descobertas você já fez durante a carreira?

Eu fui a primeira pessoa a ver e escrever sobre a supernova 1997D em janeiro de 1997, no Chile. Eu observava uma galáxia e descobri essa supernova. Hoje, ela é uma estrela muito citada por ser a supernova mais fraca já vista até hoje. Eu a vi praticamente a olho nu. Atualmente, temos muitos softwares para descobrir supernovas. Antes, era uma coisa feita manualmente. Por isso, eu sou muito orgulhosa da minha descoberta. Além dessa, também descobri com a cientista Claudia Oliveira, em 2008, as bolhas azuis. Elas são estrelas que nascem do lado de fora das galáxias em processo de colisão. Nosso time de estudantes e professores descobre até hoje novas bolhas azuis.

Qual o corpo celeste mais bonito que você já viu?

Não é o mais bonito de todos, mas o mais marcante: Saturno. Nunca me esqueço de quando vi esse planeta pela primeira vez com o telescópio da URFJ, quando eu tinha 17 anos. Não acreditei em como era lindo e pensei “foi por isso que eu escolhi astronomia”. Mas até hoje eu me encanto muito com a beleza do universo. Não vira rotina nunca. Aliás, as bolhas azuis também são lindas. Saber que elas nasceram sem galáxia é uma coisa solitária. A astronomia tem esse lado de pensar em como é o universo e tentar entender como somos pequenos diante dessa imensidão. O astrônomo vive um lado filosófico no dia a dia.

Quais os desafios da astronomia moderna?

Precisamos descobrir como as estrelas e galáxias se formam e evoluem. Mas o grande enigma da astrofísica em geral é encontrar a evidência de energia escura e descobrir quais componentes formam esse material. Isso porque vários caminhos indicam que a massa do universo é muito maior do que a gente mede. A proposta, na verdade, é que o universo está permeado de energia e matéria escuras.

Mas e se essa teoria estiver errada? 

Tem que revisar e ver o que está errado. Porém, muitos são otimistas e acham que as evidências são várias. Por exemplo, quando analisamos uma supernova muito distante, elas proporcionam essa explicação de que o universo está em processo de aceleração. Elas parecem muito mais fracas do que deveriam ser, afinal, elas acabaram de explodir e deveriam ter um brilho intenso. Isso só acontece se o universo está acelerando.

Jorg Dietrich, do Observatório da Universidade de Munique, na Alemanha, observou filamentos de matéria escura entre as galáxias. Isso já não explica alguma coisa? 

Evidências de matéria escura existem, sim. Entre os aglomerados de galáxias realmente existem esses filamentos. Dentro deles, pode ser que tenha bastante matéria escura. Pode ser que quando a conta for feita, esses filamentos sejam comuns em muitos lugares do universo e formem boa parte da matéria escura. Mas ainda não sabemos qual o elemento, o componente que está ali, o constituinte da matéria.

Estamos muito longe dessa descoberta?

Sim, porque não temos a tecnologia que consiga analisar do que é feita a energia escura. Precisamos inventar métodos novos para conseguir fundos e construir o satélite que faça isso. Estamos há pelo menos uma década disso.

O governo de Barack Obama fez um corte orçamentário na Nasa no primeiro semestre de 2012. Você acha que isso prejudica a exploração espacial e as pesquisas científicas? 

Não, os cortes acontecem desde a grande crise econômica. O problema é anterior ao governo Obama. Por exemplo, a Nasa teve que se reestruturar quando George Bush anunciou que iríamos para Marte e para a Lua, mas não fez um orçamento para isso. Até hoje sofremos com essa decisão. O que mais deu medo no governo Obama não foi o corte orçamentário, mas a perspectiva de cancelar o projeto James Webb, do telescópio espacial sucessor do Hubble, que custou bilhões de dólares e já está 75% feito. O congresso não aprovou e disse que era muito caro. O senado teve que interferir e mandar um novo projeto. Então, eles reavaliaram e aprovaram, mas com menos dinheiro. Os cortes do Obama não cancelam missões, apenas diminuem o orçamento. Poderia estar bem pior.

Fonte: info Abril

http://info.abril.com.br/noticias/ciencia/entrevista-de-domingo-e-preciso-descobrir-o-que-e-a-energia-escura-09122012-1.shl

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