A incansável busca pela vida extraterrestre

Estamos vivendo uma época de grandes acontecimentos na ciência. Nos últimos 7 anos, importantes descobertas foram feitas e audaciosos projetos estão sendo postos em prática. Presenciamos o pouso impecável do robô Curiosity em Marte, o entusiasmo coletivo pela detecção do Bóson de Higgs,  o espanto pela notícia de que neutrinos seriam mais rápidos do que a luz (infelizmente causado por erro de medição), o desenvolvimento de dispositivos eletrônicos experimentais feitos com grafeno (lâmina de carbono da espessura de um átomo que se movem incrivelmente rápido), entre tantos outros episódios marcantes.

astrobio

No meio desse turbilhão de acontecimentos, podemos destacar uma área muito promissora e que tem atraído um grande interesse do público atualmente: a Astrobiologia, uma ciência multidisciplinar que trata do estudo da origem, evolução, distribuição e futuro da vida no Universo.

Por se tratar de uma ciência que procura respostas para uma das questões mais fundamentais da humanidade, “De onde viemos?”,muitos esforços tem sido feitos para o desenvolvimento deste ramo. Com o avanço tecnológico e a adesão de profissionais de diversas áreas, a Astrobiologia deu um grande salto em seu desenvolvimento, cujo início ocorreu lá na década de 60 com a tecnologia dos radiotelescópios. As descobertas que estão sendo feitas nos campos da Astroquímica, Planetologia e Microbiologia só fazem aumentar a expectativa pela existência de vida extraterrestre.

Até mesmo uma das hipóteses sobre a origem da vida na Terra, antes desacreditada entre os cientistas, vem ganhado força nos últimos anos: a panspermia, isto é, a hipótese de que a vida tenha se originado fora da Terra e tenha sido trazida para cá por meio dos inúmeros impactos de asteroides e cometas na infância de nosso planeta. Isso porque pesquisas recentes da Astroquímica apontam evidências da presença de moléculas complexas nesses pequenos corpos do Sistema Solar. Como bem diz o astrônomo Augusto Damineli, em seu artigo Vida no Universo – uma busca do século XXI:

“A descoberta de aminoácidos em meteoritos, reforça a importância do contexto astronômico para o estudo da vida. Na verdade, não podemos descartar a hipótese de que ela tenha se originado fora da Terra e aqui aportado já pronta ou quase pronta. […] Muitos cometas caíram sobre a Terra, trazendo para cá a água e moléculas orgânicas. […] A glicina já foi detectada em nuvens de gás interestelar, além de açúcares, alcoóis e outros compostos orgânicos. O que parece tão difícil para a Terra abiótica acontece facilmente no céu. O bombardeamento meteorítico trouxe para cá bastantes aminoácidos, e esse pode ter sido o material do qual a vida se originou.”

E tais moléculas não somente são encontradas em corpos como asteroides e cometas. Elas existem também no meio interestelar, nas nuvens de gás e poeira que permeiam o universo. Como podemos ver no vídeo abaixo, astrônomos detectaram moléculas de glicoaldeído (uma forma simples de açúcar) no gás que circunda uma estrela binária jovem, com massa semelhante à do Sol.

As pesquisas neste ramo na Astronomia não param e, a cada ano, novos tipos de moléculas são detectadas no universo. Sabemos que átomos como Carbono, Hidrogênio, Oxigênio e Nitrogênio (CHONs) estão entre os mais abundantes no espaço, pois são formados no interior das estrelas e ejetados no meio interestelar durante os eventos de supernova juntamente com outros elementos mais pesados. A única exceção é o átomo de Hidrogênio, que teve sua formação logo após o Big Bang e é o elemento mais abundante do universo.

Com todos esses átomos vagando livres pelo espaço, é de se esperar que eles formem moléculas ao longo dos anos. Ou, neste caso, ao longo de milhares de anos. Contudo, detectar moléculas grandes não é uma tarefa fácil. Exige que nossos instrumentos sejam os mais sensíveis possíveis e, por isso, melhorias no setor tecnológico serão sempre necessárias. O instrumento mais preciso que temos atualmente é o ALMA (Atacama Large Milimeter/submillimeter Array), um conjunto de radiotelescópios de última geração capaz de detectar radiação com comprimentos de onda milimétricas produzida por alguns dos objetos mais frios do Universo. Com os dados desse potente telescópio, os cientistas poderão encontrar as moléculas mais complexas presentes no meio interestelar.

Por isso, olhos atentos para o que virá para os próximos anos!

ALMA_and_a_Starry_Night

conjunto de antenas do ALMA

Uma outra inovação que causou impacto no meio científico e que tem contribuído muito para o avanço da Astrobiologia é a detecção de planetas extrassolares. Desde que o primeiro planeta extrassolar (51 Pegasi b) foi descoberto, em 1995, centenas de outros já foram detectados. O número atual de exoplanetas está em 1822, mas a lista continuará aumentando. A maior parte desses planetas é do tipo gigante gasoso e situam-se bem perto da estrela de seu sistema. Isso ocorre porque a técnica de detecção que os astrônomos utilizam ainda é limitada e só permite que os maiores planetas sejam detectados.

Entretanto, com o aperfeiçoamento das técnicas, planetas rochosos com o tamanho próximo ao da Terra também estão sendo descobertos. São os chamados Super-Terras. E são exatamente esses os objetos mais interessantes para o estudo da Astrobiologia, já que partimos da hipótese de que planetas semelhantes ao nosso tenham mais probabilidade de desenvolver vida. Isso contando também que os planetas em questão estejam dentro da chamada Zona de Habitabilidade, isto é, uma região onde há grande probabilidade de encontrar planetas que contenham água no estado líquido.

A imagem abaixo mostra quais dos exoplanetas já detectados possuem grande potencial para abrigar vida, dada sua condições de semelhança com o nosso planeta.

Exoplanetas potencialmente habitáveis

Atuais exoplanetas potencialmente habitáveis

Enquanto alguns cientistas procuram por vida em outros sistemas planetários, existem outros que estão olhando para nossa vizinhança. Os lugares mais prováveis à existência de vida aqui em nosso Sistema Solar incluem o planeta Marte, a lua Europa, de Júpiter, e as luas Titã e Encélado, de Saturno.

Marte, sem dúvida, é local que mais atrai interesse dos pesquisadores por conta de sua semelhança com o nosso planeta e por estar dentro da Zona Habitável do nosso sistema solar. Apesar de ser um local hostil à vida atualmente, Marte possui água congelada em seus polos e em seu subsolo, e pode já ter abrigado vida em algum momento de seu passado quando sua atmosfera ainda conseguia impedir a entrada da radiação solar. Então fica a questão: se aqui na Terra já foram encontrados microorganismos que vivem no gelo da Antártida, por que eles não existirão também em Marte?

Dentre os satélites naturais, Europa é um dos locais de grande interesse, pois possui uma superfície de gelo contendo de 5 a 30 km de espessura e também um oceano líquido logo abaixo dessa camada de gelo, o que propicia um ambiente ideal para o desenvolvimento de microorganismos que vivem próximos à fontes hidrotermais, tal como acontece no fundo dos oceanos terrestres.

Já Titã, uma das luas de Saturno, possui uma densa atmosfera que bloqueia a passagem dos raios ultravioleta, protegendo, assim, quaisquer tipos de vida que talvez possam surgir por lá. Além disso, sabe-se que existem lagos de hidrocarbonetos (compostos orgânicos simples) em sua superfície, o que pode favorecer o surgimento de vida. Em Encélado, outra lua de Saturno, foram detectados gêiseres (grandes jatos de vapor d´água) em sua superfície, indicando a presença de atividade geotérmica em seu interior e a existência de água líquida logo abaixo de sua crosta.

deinnococcos radiodurans

Com tantos ambientes exóticos, a vida que viesse a ser formada nesses locais certamente seria bem diferente daquela que conhecemos. Contudo, mesmo aqui na Terra conseguimos encontrar seres que vivem em condições ambientais extremas e não por menos são conhecidos como extremófilos. A descoberta desses microorganismos, lá na década de 70, causou um grande alvoroço no meio científico e chegou a surpreender até mesmo os biólogos, que antes eram resistentes à ideia de que a vida poderia existir em outros locais do universo. Hoje sabemos que existem extremófilos que sobrevivem em regiões de alta ou baixa temperatura, pressão, salinidade, acidez, dentre outros locais extremos.

Um desses microorganismos, em especial, é capaz de suportar quantidades intensas de radiação e é considerada pelo Guiness Book como a bactéria mais resistente do mundo. Estamos falando da Deinococcus Radiodurans, esta fantástica bactéria da imagem acima que vem atraindo os olhares dos cientistas, pois é capaz de sobreviver até mesmo a uma viagem interplanetária, o que só ajuda a reforçar a hipótese de que a vida poderia ter sido transportada para cá quando nosso planeta ainda estava na sua infância.

Todas essas descobertas só fazem crescer a expectativa pela existência de vida extraterrestre, ainda que na forma microbiana. No entanto, nada concreto ainda foi encontrado. Mas isso pode ser questão de tempo, já que iniciamos nossa busca há poucas décadas atrás e somente agora estamos colhendo os primeiros frutos do nosso esforço. A Astrobiologia ainda tem uma longa estrada a percorrer e, durante o caminho, pode ser que encontremos várias surpresas. O otimismo entre os cientistas é grande e o sentimento de que muito em breve acharemos a resposta para nossa questão fundamental só aumenta a cada descoberta. Afinal como já dizia nosso saudoso mestre Carl Sagan: “Se não existir vida fora da Terra, então o universo é um grande desperdício de espaço.”

Para conhecer mais:

DAMINELI, A – Vida no Universo: uma busca do século XXI – Revista USP. 2004
PAULINO-LIMA, I. G. e LAGE, C. de A. – Astrobiologia: de?nição, aplicações, perspectivas e panorama brasileiro – Boletim da SAB 2010
FIL, M. e GUERREIRO, F. – Em busca de Vida para além da Terra
PILLING, S. – Astrobiologia: Notas de Aula – UNIVAP

*Artigo escrito por Bruna Mayato Rodrigues e publicado originalmente no site Alimente o Cérebro

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2 thoughts on “A incansável busca pela vida extraterrestre

  1. Se foi aqui que a vida se desenvolveu na sua plenitude por que temos que achar que ela se originou longe daqui? Talvez seja o nosso destino povoar o universo.

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  2. Pingback: Na Maré Montante da Vida Cosmológica | Questões Cosmológicas

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