Onde estão as cientistas? – PARTE 1

Pouco espaço, machismo e falta de equidade são alguns dos desafios que as mulheres enfrentam para seguir a carreira acadêmica

Graças a histórias em quadrinhos, filmes e seriados, o cientista está no imaginário das pessoas como um homem excêntrico, descabelado, imerso em cálculos incompreensíveis por nós, meros mortais. Tente, agora, buscar na memória a imagem de uma mulher cientista. Difícil? Para pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, isso se deve à sub-representação feminina em áreas científicas — não apenas nas telas, mas, principalmente, na vida real. O mote do estudo, publicado este mês na revista científica Science, foi responder à pergunta: afinal, onde estão essas mulheres?

De acordo com dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), hoje, no Brasil, há 63.349 doutores bolsistas de mestrado do sexo masculino — 7.075 a mais que do sexo feminino. A maioria delas concentra os estudos em áreas das ciências humanas (10.856) e da saúde (10.088), enquanto eles dedicam-se às ciências sociais aplicadas (7.236), exatas e da terra (6.258). A equipe de psicólogos norte-americanos testou três hipóteses para a falta de estrogênio nos laboratórios: a) mulheres tentariam evitar carreiras que as obrigam a trabalhar muitas horas seguidas; b) mulheres seriam menos capazes de entrar em campos altamente seletivos; e c) mulheres seriam superadas por homens em carreiras que exigem raciocínio analítico e sistemático.

No estudo, os pesquisadores entrevistaram 1, 8 mil estudantes de graduação, pós-doutorado e docentes de 30 disciplinas diferentes. O objetivo principal foi analisar a cultura de diferentes campos do conhecimento. Entre outras coisas, eles perguntaram quais qualidades eram necessárias para que os participantes tivessem sucesso em seus campos de atuação. As mulheres sentiam-se (e eram) subrepresentadas em ambas as áreas: humanas e exatas. Historicamente consideradas inferiores intelectualmente, mulheres que se interessam por campos como física, engenharia, matemática e outras que “idolatram gênios” costumam encontrar resistência. Ao fim do experimento, os pesquisadores chegaram à mesma conclusão das que se aventuram no mundo científico: há poucas mulheres na ciência porque a ciência não dá espaço.

O estereótipo de que elas não têm as habilidades intelectuais necessárias para encabeçar uma pesquisa científica, para os estudiosos, ajuda a explicar a pouca representação delas na ciência. “Não estamos afirmando que ser brilhante ou valorizar quem é brilhante é uma coisa ruim”, frisou Andrei Cimpian, um dos psicólogos envolvidos no trabalho. “Também não estamos dizendo que mulheres não são brilhantes ou que ser brilhante não é útil para a carreira acadêmica. O que nossos dados sugerem é que transmitir aos alunos uma crença de que o ‘brilho’ é necessário para o sucesso pode ter efeito diferenciado sobre homens e mulheres que estão tentando seguir essa carreira.”

Para Márcia Cristina Barbosa, professora de física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadora do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e doutora em física, antes de se pensar nas diferenças entre homens e mulheres que explique a desproporção nas ciências exatas, é preciso analisar se há equidade. Márcia explica que na pesquisa em geral e, em particular, em exatas, a produção científica é quantificada com base em algumas variáveis: número de artigos, de citações, parâmetro h (número de artigos com até h citações) e de estudantes formados. Em um mundo com igualdade homens e mulheres, esses índices devem estar no mesmo nível. “Em física, descobrimos em 2005 que esse não era o caso. As mulheres no nível 2 e no nível 1B (primeiros níveis) tinham, em média, mais artigos do que os homens.”

Gustavo Diehl

A conclusão veio a partir de um levantamento feito pela professora para avaliar a entrada e saída no sistema e para as alterações de nível em bolsas de Produtividade em Pesquisa, oferecidas pelo CNPq. Entre os dados, a pesquisadora descobriu que, de 2005 a 2010, os homens produziram apenas um artigo a mais que as mulheres. “Pergunto, então, se isso é equidade. Não, isso é igualdade e não há coisa mais injusta que tratar profissionalmente com igualdade quem tem, no mundo privado, tratamento desigual”, argumenta. “As mulheres ainda são as responsáveis por administrar o lar, os filhos e os velhos. Como poderíamos esperar uma produção igual em condições desiguais?”.

O artigo “Mulheres na física do Brasil: por que tão poucas? E por que tão devagar?”, também de autoria de Márcia, mostra que o percentual de mulheres na física é pífio: menos de 15% estão entre os bolsistas do CNPq. Dessas, apenas 5% ocupam o topo. Outra questão, então, vem à tona: por qual motivo seria desejável ter mais mulheres nos postos de maior importância? Afinal, por que a física precisa delas? “Não vou trazer questões como democracia ou justiça. A física precisa de mulheres porque ciência precisa de diversidade”, resume a cientista. “Hoje, a ciência se faz em grandes grupos, em grupos que precisam juntar o diferente para gerar o novo.”

Valorização profissional, diferença de salários e/ou de tarefas não são questões que incomodam as cientistas. O que atrapalha (ao menos na opinião das pesquisadoras ouvidas nesta reportagem) é justamente a dificuldade em alcançar o topo. Júlia Vasques, biomédica e pesquisadora do Laboratório Sabin, foi vencedora da medalha de melhor trabalho científico da Annual Meeting and Clinical Lab Expo 2013, evento promovido pela American Association for Clinical Chemistry (AACC). Ela endossa a opinião de Márcia Barbosa: há, sim, mulheres na ciência. O problema é onde elas estão alocadas. “Percebo que a participação vem crescendo muito, mas, os grandes chefes da produção científica, principalmente na área da saúde, são homens.”

Fonte: Correio Braziliense

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