O Paradoxo de Tsiolkovsky-Fermi e o Cosmismo Russo

Autor: Bruno Martini

Paradoxo de Fermi é o conceito que lida com a contradição lógica entre o alto potencial de haver inteligência extraterrestre na nossa galáxia e porque não vemos nenhum sinal de sua existência. Esse conceito deveria ser chamado de Paradoxo de Tsiolkovsky-Fermi, já que Konstantin Tsiolkovsky descreveu-o 17 anos antes de Enrico Fermi.Tsiolkovsky até apresentou sua própria solução para ele, seguindo as ideias do movimento Cosmista Russo.

             Já é hora da maioria da comunidade astrobiológica internacional reconhecer completamente o trabalho do cosmonauta teórico russo Konstantin Eduardovich Tsiolkovsky (1857-1935), em russo Константин Эдуардович Циолковский. Ele tem sido recentemente apontado como o primeiro homem a desenvolver as bases teóricas do voo espacial, principalmente depois da tradução do seu trabalho do russo para o inglês. Seus conceitos teóricos sobre isso inspiraram o desenvolvimento dos foguetes modernos de hoje e provavelmente inspirarão os futuros esforços de colonização fora da Terra. No entanto, ele deu outra profunda contribuição para as ciências espaciais e especialmente a astrobiologia, como o primeiro a propor o que é atualmente conhecido pelos astrobiólogos como o Paradoxo de Fermi.

            O Paradoxo de Fermi ganhou seu nome a partir da discussão informal proposta pelo físico italiano Enrico Fermi enquanto trabalhava no Laboratório Nacional de Los Alamos, nos EUA, em 1950. Isso de fato ocorreu durante um almoço com seus colegas Emil Knopinski, Herbert York e Edward Teller,enquanto eles discutiam por que não haveria evidência clara de seres extraterrestres(ou de suas espaçonaves e sondas),uma vez que a Terra parece não ser um mundo singular nessa nossa Galáxia da Via Láctea, que tem 10 bilhões de anos de idade e 100 mil anos-luz diâmetro. As condições que originaram a vida na Terra parecem ser comuns na Via Láctea, tornando a vida e a inteligência fenômenos galácticos prováveis. Se civilizações alienígenas existem, já deveríamos ter detectados sinais de sua existência.

            Vinte e cinco anos depois, Michael H. Haat publicou esse paradoxo como um problema mais detalhado no Quarterly Journal of the Royal Astronomical Society, com o sugestivo título de “Explicações para a Ausência de Extraterrestres na Terra”. Depois disso, alguns pesquisadores se referiram ao problema como o Paradoxo de Fermi-Haat, além dos nomes Problema de Fermi, Pergunta de Fermi (Onde Eles Estão?), o Grande Silêncio e Silentium Universi (“Silêncio do Universo”, em latim). O fato é que o nome mais justo deveria ser Paradoxo de Tsiolkovsky-Fermi, já que Konstantin Tsiolkovsky antecipou Enrico Fermi em 17 anos.

            Em 1933, Tsiolkovsky publicou em russo um ensaio chamado “Os Planetas estão Ocupados por Seres Vivos”. Lá, ele escreveu “se esses seres existem, eles teriam visitado a Terra” e mais “se eles existem, teriam nos dado algum sinal de sua existência”. É interessante notar que Tsiolkovsky também comenta que outras pessoas não identificadas teriam levantado esses tópicos antes, apesar de ele ter sido o primeiro a publicar todos os passos lógicos que o levaram a racionalizar sobre esse paradoxo e expressá-lo em palavras escritas para um público maior.

 

O astronauta teórico russo Konstantin Eduardovich Tsiolkovsky (1857-1935).

Crédito: Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/File:Tsiolkovsky.jpg).

            Tsiolkovsky era quase surdo devido a uma escarlatina contraída quando ele tinha 10 anos, o que fez ele não ser aceito pelas escolas de ensino fundamental e obrigou-o a estudar sozinho em casa. Mais tarde, ele teve a oportunidade de estudar com o famoso filósofo russo Nikolai Fyodorov (1828-1903) na biblioteca do Museu Rumyantsev, em Moscou (atualmente conhecida como a Biblioteca Estadual Russa). Fyodorov era um excêntrico e um idealista futurista que usou parte de sua vida e quase todo seu dinheiro para ensinar estudantes pobres e nunca publicou suas ideias, já que ele se opunha à propriedade privada de livros e ideias. As ideias de Fyodorov foram publicadas apenas depois de sua morte em um livro chamado Filosofia da Tarefa Comum.

            Tsiolkovsky, assim como seu mentor Fyodorov, eram parte de um movimento filosófico e cultural nomeado Cosmismo Russo. As ideias por trás dele eram sobre o futuro da humanidade como uma espécie inteligente, que deixará a Terra para explorar o Cosmos, provavelmente levando parte das outras formas de vida da Terra com ela. A humanidade seria então capaz de se engajar ativamente em sua própria evolução, redesenhando a si mesma e o mundo a sua volta com uma combinação futurística de conhecimento técnico sobre biologia, cognição e novas tecnologias, finalmente criando um mundo completamente novo. O recente movimento filosófico e cultural chamado Transumanismo adotou muitos dos antigos conceitos da Cosmismo Russo.

            Citando Tsiolkovsky: “A Terra é o Berço da Mente, mas não se pode viver eternamente em um berço.” Ele acreditava que a humanidade iria eventualmente alcançar a imortalidade depois de conquistar a independência de seu planeta natal e explorar as profundezas do Cosmos.  Fyodorov e Tsiolkovsky também consideraram todo o Universo como estando vivo e o átomo como o ser mais simples, aprofundando o conceito da Terra viva (a hipótese de Gaia), proposta por James Lovelock nos anos de 1970.

            Como a humanidade está apenas começando sua evolução como uma espécie inteligente, Tsiolkovsky concluiu que outras inteligências extraterrestres poderiam ser muito mais antigas e desenvolvidas que nós e já terem alcançado esse status cósmico. Depois de ponderar sobre a aparente contradição lógica entre a provável abundância de alienígenas inteligentes viajando através das estrelas e porque nós não temos evidência concreta de algum contato, ele sugeriu sua própria explicação ou “solução” para isso. Em suas palavras: “Nossos meios são muito fracos para serem capazes de perceber esses sinais” e “além disso, devido ao baixo desenvolvimento dos animais e da maioria dos humanos, não há razão para informá-los (aos humanos) de que os planetas estão povoados.” “Somos irmãos, mas matamos uns aos outros, começamos guerras e tratamos os animais brutalmente. Como trataríamos estranhos absolutos?” (…) “Eles podem não desejar esse conflito e destruição.” (…) “Podemos realmente ter relacionamentos racionais com cachorros e macacos? Da mesma maneira, seres mais evoluídos não são capazes de se comunicarem conosco no presente.” E adiciona “deverá chegar o tempo em que o desenvolvimento médio dos humanos será alto o suficiente para eles serem visitados pelos habitantes celestiais.”

            Em um ensaio mais tardio, Tsiolkovsky continuou a raciocinar sobre sua solução. Ele racionalizou que apenas umas poucas civilizações poderiam ultrapassar todos os obstáculos ao desenvolvimento da inteligência, conquistando as soluções para as doenças, conflitos e morte,parafinalmente se empenharem na sua perfeição e felicidade como espécie. Depois de alcançarem esses objetivos, eles ajudariam civilizações menos avançadas a também fazerem isso. Mas, ao ajudarem outra civilização menos desenvolvida, poderiamevitar o surgimentodo caminho evolucionário singular que essa civilização seguiria naturalmente, transpondo os obstáculos por si mesma. Ao abrir nossa própria via através da avenida cósmica da inteligência, poderíamos adicionar algo único para o Universo e para a sociedade interestelar intercomunicativa.

            A solução apresentada por Tsiolkovsky também antecipou um cenário usualmente atribuído a John Ball e publicado em 1973 como a Hipótese do Zoológico.Nela, a Terra é protegida como um zoológico ou uma reserva natural planetária.Outra proposta semelhante é a Hipótese da Quarentena, de Kuiper e Morrisem 1977.Nesse cenário, a vida terrenaestáisoladapara permitir o desenvolvimento natural de um novo caminho evolutivo. A rota evolutivaoriginal da vida terrestre em direção à inteligência e à colonização espacial pode ser uma informação singular, provavelmente oúnico recursoescasso que a Terra poderia oferecer a uma civilização bem mais avançada.

            A cratera mais proeminente da face oculta da Lua e um museu cosmonáutico na Rússia ganharam o nome de Tsiolkovsky, em honra ao seu trabalho. Há também algumas estátuas na Rússia e em outros países representando sua figura. Mas, talvez a astrobiologia e as ciências espaciais como um todo lhe devam o crédito imortal por desenvolver o conceito astrobiológico fundamental do Paradoxo de Tsiolkovsky-Fermi!

Monumento a Konstantin Eduardovich Tsiolkovsky (Константин Эдуардович Циолковский em russo) em Moscou, Rússia.

Crédito: Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/File:Ciolkovskij2_vdnx_sep2008.jpg).

Para mais detalhes, confira: Lytkin, V.; Finney, B.; Alepko, L. Tsiolkovsky, Russian Cosmism and Extraterrestrial Intelligence. Quarterly Journal of the Royal Astronomical Society, 36, 369-376, 1995.

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