Em carta, professor da UFRJ investigado pela PF diz que caso foi fabricado

O professor de física da UFRJ Adlène Hicheur, investigado pela Polícia Federal brasileira, afirmou que o processo sofrido por ele na França por suspeita de terrorismo foi fabricado. Enquanto vivia em Paris, o franco-argelino foi preso e condenado a cinco anos de prisão sob acusação de planejar atentados terroristas.

Em carta enviada por email ao Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), à qual o GLOBO teve acesso, Hicheur sustenta que a acusação não conseguiu apresentar provas materiais para sustentar seus argumentos.

“Nenhum ato violento preciso foi mencionado como objetivo da alegada conspiração”, destacou. “Eu fui preso pela polícia francesa no fim de 2009 e a única justificativa desta minha detenção foram minhas visitas aos chamados websites islâmicos subversivos. Fui privado da minha liberdade por dois anos apenas com base nisso. Nenhum outro elemento foi apresentado contra mim”.

O caso foi revelado pela “Época”, em reportagem publicada no último dia 8. Segundo a revista, a polícia francesa se baseou em mensagens trocadas por Hicheur com o pseudônimo Phenix Shadow — que seria Mustapha Debchi, apontado pelo governo francês como membro da al-Qaeda na Argélia — mencionando assassinatos, ataques a embaixadas e potenciais alvos, entre outros conteúdos suspeitos.

Hicheur declarou-se inocente e denunciou abusos durante o periódo em que esteve sob custódia na França.

“A acusação não sustentou o caso com fatos e evidências. O caso foi fabricado usando-se partes pinçadas de uma conversa virtual com o objetivo de mostrar que haveria uma tentação de considerar a violência como solução para conflitos internacionais em países árabes e muçulmanos como Iraque ou Afeganistão”, acrescentou Hicheur na carta. “Eu tenho constantemente dito que sou inocente e denunciei a minha custódia abusiva e as acusações feitas contra mim”.

No Brasil, a PF passou a investigá-lo após uma reportagem da rede de TV americana CNN no início de 2015 numa mesquita no Rio, em que um frequentador defendia os ataques ao semanário francês “Charlie Hebdo” e levantou a camisa, revelando um símbolo do Estado Islâmico (EI). Com a descoberta de que Hicheur também frequentava o templo, ele também passou a ser investigado, e seu escritório na UFRJ e seu apartamento na Tijuca foram revistados.

Na carta, intitulada “resposta do professor Adlène Hicheur à reportagem publicada na revista ‘Época'”, o físico sustenta que a “Polícia Federal no Brasil não tem nada contra” ele e nega qualquer ligação com o ocorrido na mesquita no Rio, ressaltando que nem estava no local naquele dia. Ainda no documento, Hicheur argumenta que “estava muito doente durante todo o período do alegado crime de ‘associação com transgressores’”.

“Durante seis meses passei por vários hospitais, fui atendido por inúmeros médicos, como fisiologistas e reumatologistas. Finalmente fui para a casa dos meus pais para me recuperar de meus problemas na espinha e do nervo ciático”, acrescentou.

Ele destacou que teve apoio da comunidade científica durante todo o processo e que tem lutado para se recuperar de uma experiência que descreveu como “terrível”.

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“Desde que as primeiras acusações foram apresentadas contra mim e eu fui preso, recebi apoio não somente da comunidade científica, mas de entidades da sociedade civil locais e internacionais. Os físicos Jean-Pierre Lees, Monica Pepe-Altarelli e Jean-Pierre Merlo criaram um Comitê Internacional de Apoio que contou com a adesão de centenas de pessoas. Tive o apoio, inclusive, de Jack Steinberger, Prêmio Nobel de Física, e de Jean Ziegler, vicepresidente da comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos”.

O documento foi enviado junto a uma carta assinada por Ignacio Bediaga, coordenador de Física Experimental de Altas Energias do CBPF. Bediaga classificou o processo francês contra Hicheur de arbitrário.

“Como colaboradores da experiência LHCb no CERN (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear), acompanhamos desde o início toda a problemática envolvendo a prisão do Dr. Hicheur em 2009, então pós-doutorando do instituto de física da prestigiosa École Polytechnique Fédérale de Lausanne (EPFL). À época da sua prisão, pudemos observar que as opiniões dos nossos colaboradores europeus fcaram divididas com relação à legalidade e à legitimidade do arresto. Entretanto, após dois anos de encarceramento, sem acusação defnida, houve um consenso entre os nossos colegas da arbitrariedade da ação da polícia francesa e do próprio julgamento.”

FONTE : JORNAL O GLOBO

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