“Ao invés de cortar, o Brasil deveria investir em P&D para sair da crise”, afirma o novo presidente da ABC

O físico Luiz Davidovich é o novo presidente da Academia Brasileira de Ciências. Ele substitui o matemático Jacob Palis, que ficou à frente da entidade por nove anos. A cerimônia de posse foi realizada ontem, 4 de maio, junto às celebrações do centenário da ABC, no Rio de Janeiro

Luiz davidovich ABC

O físico Luiz Davidovich, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é o novo presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), entidade independente que comemora seu centenário esta semana, com atividades no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Em entrevista ao Jornal da Ciência, Davidovich, que tomou posse ontem em cerimônia realizada na escola Naval do Rio de Janeiro, condena os cortes feitos nos Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e no da Educação (MEC), e afirmou que a saída para a crise econômica está na ampliação dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. “O Brasil tem ficado para trás em relação a outros países em desenvolvimento, como a China, a Índia, a África do Sul e a Rússia, que estão apostando em pesquisa em plena crise, porque acreditam que o desenvolvimento científico e tecnológico é fundamental para sair dela”.

Davidovich substitui o matemático Jacob Palis, que ficou à frente da entidade por nove anos. Palis é pesquisador do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa/MCTI) e contribuiu para a expansão da grade curricular da matemática no Brasil. Atuante, ele é membro das academias de ciências chilena, mexicana, americana, francesa, norueguesa e de várias outras associações internacionais. Palis é também o coordenador do Instituto do Milênio (“Avanço Global e Integrado da Matemática Brasileira”). O cientista já foi homenageado com diversos prêmios nacionais e internacionais, tais como Prêmio Moinho Santista (1976), Prêmio TWAS em Matemática (1988), Prêmio Nacional de Ciência e Tecnologia (1990), InterAmerican Prize for Science (1995), Prize Mexico for Science and Technology (2001), Trieste Science Prize (2006), International Prize Accademia Nazionale dei Lincei for Mathematics (2008) e o destacado Balzan Prize (2010), sendo o sétimo matemático premiado, desde 1962, e o primeiro não europeu/americano.

Na entrevista abaixo, Davidovich falou um pouco sobre os planos para sua gestão, além de avaliar a ciência brasileira. Para ele, é preciso investir na divulgação da Ciência, e para isso, a ABC está fechando uma parceria com o Museu do Amanhã. “Queremos isso não só aqui no Rio, mas em todo o País. Vamos mobilizar as filiais da Academia, que já fazem atividades como simpósios, além de ampliar as parcerias internacionais”, disse.

Jornal da Ciência – O senhor já tem um plano de gestão para a ABC?

Luiz Davidovich – Vamos dar continuidade a algumas coisas. A ABC tem produzido estudos sobre vários temas de grande relevância para o País. São trabalhos acompanhados de propostas de suma importância. A ideia agora é ampliar o leque desses temas abordados. O trabalho sobre reforma da educação superior, por exemplo, deu origem à Universidade Federal do ABC, que é uma universidade moderna, com possibilidade de formação interdisciplinar, contemporânea, para graduação em diversas áreas e saiu de recomendação da Academia. Nos últimos anos, a ABC construiu essa reputação de ser um centro de pensamento sobre o País, que gera propostas de políticas públicas muito consistentes, pois são embasadas na competência científica dos membros da academia.

Essa tem sido uma tarefa importante da Academia e a nova diretoria pretende continuar e ampliar, abordando temas que ainda não foram considerados e que são importantes para o País: fontes de energia, nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia de informação, outros biomas, além da Amazônia, como o Mar, para o desenvolvimento sustentável do Brasil.

Pretendemos continuar nessa linha envolvendo um número cada vez maior de membros. É importante que os associados participem cada vez mais desses estudos e da formulação dessas propostas de políticas científicas. Queremos também atrair mais jovens, inclusive motivá-los à Ciência. Estou achando ótimo que essa reunião (em comemoração aos 100 anos da ABC) seja aqui no Museu do Amanhã, que é um lugar perfeito para divulgar a Ciência. Estamos, inclusive, fechando uma parceria com o Museu para divulgarmos mais a Ciência, mas queremos isso não só aqui no Rio, mas em todo o País. Vamos mobilizar as filiais da Academia, que já fazem atividades como simpósios, além de ampliar as parcerias internacionais. Que já existem, mas é sempre bom aumentar. Temos neste evento muitos cientistas de outros países e é um ótimo momento para estreitar mais os laços.

JC – O senhor disse que em entrevista ao MCTI que “para sair da crise, o Brasil deve apostar em ciência”. De que maneira a ABC pode contribuir para isto acontecer?

LD- É interessante que algumas pessoas dizem que numa crise é preciso cortar, então se corta em Ciência e Educação, áreas fundamentais. Em outros países, eles fazem ao contrário. O Brasil tem ficado para trás em relação a outros países em desenvolvimento, como a China, a Índia, a África do Sul e a Rússia, que estão apostando em pesquisa em plena crise, porque acreditam que o desenvolvimento científico e tecnológico é fundamental para sair da crise. Em plena crise, eles aumentam os investimentos porque consideram que esse é o caminho para sair dela de forma sustentável.

Se você corta bolsa, você está acabando os cientistas do futuro. Acabando com cérebros que ajudarão o Brasil a criar inovação tecnológica, a ser um protagonista na Ciência. Gosto muito de uma analogia feita pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com um avião. Se um avião em pleno voo tiver uma pane, teremos que aliviar o peso, mas nunca se desfazer do motor. O motor é a ciência e a tecnologia.

A China, por exemplo, em momentos de crise aumenta o investimento em pesquisa, em particular, na pesquisa básica. No mesmo discurso em que o primeiro ministro chinês diz que o crescimento do País vai desacelerar, ele diz que irão aumentar os investimentos em pesquisa básica e nas melhores universidades. Eles fazem isso porque sabem que esse é o meio de sair da crise, de alavancar o desenvolvimento de forma sustentável, através da inovação tecnológica e da atividade científica. Não é só a China. Os países da Europa chegaram a um acordo, recentemente, no sentido de alcançar investimento em P&D para 3% do PIB em 2020. O investimento do Brasil atualmente em P&D é da ordem de 1,5%.

A proposta da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e também da ABC era no sentido de alcançar 2% do PIB de investimento em P&D em 2020. Mas essa proposta agora me parece modesta ao comparar os investimentos em outros países. Israel e Coreia do Sul, por exemplo, investem mais de 4% do PIB em P&D. É preciso mudar a mentalidade dos nossos governantes, mas também da sociedade em geral. Precisamos que a sociedade entenda a importância disso para o futuro do País.

JC – Como o senhor avalia a ciência produzida no Brasil?

LD – A ciência do País teve um progresso extraordinário. E ele se deve a investimentos de longos prazos. Ainda estamos aproveitando a criação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) que permitiram sistemas de bolsas que formaram grandes cientistas brasileiros. Esses investimentos começaram na década de 1950 e são responsáveis pela estrutura científica que temos hoje em dia. Estamos publicando nas melhores revistas, mas temos que galgar novos horizontes.

Queremos não só publicar nas melhores revistas, mas sermos, de fato, protagonistas internacionais na área de CT&I. Temos que ter essa ambição. Isso é mais do que nunca um dever, uma missão do nosso País. Muitos países desenvolvidos estão fazendo isso, por exemplo, a China e a Índia. Temos que perseguir essa trilha, senão iremos ‘morrer na praia’.

Vivian Costa – Jornal da Ciência

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